Traçar mapas para uma Magnífica Humanização: dois dias para voltar a perguntar o que significa educar

Nos dias 2 e 3 de outubro, Fátima reuniu cerca de 420 educadores, professores, investigadores e responsáveis educativos para pensar os grandes desafios da educação e o futuro da escola.
O Centro Pastoral Paulo VI, em Fátima, foi, nos dias 2 e 3 de outubro, lugar de encontro, reflexão e escuta para centenas de pessoas ligadas à educação em Portugal. O Simpósio sobre a Educação e a Escola em Portugal, subordinado ao tema “Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização”, reuniu cerca de 420 participantes para pensar uma questão que se tornou cada vez mais urgente: como educar num mundo que está a mudar tão depressa?
A iniciativa foi promovida pela Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, em articulação com o Secretariado Nacional da Educação Cristã (EDUCRIS), a Associação Portuguesa das Escolas Católicas (APEC), o Instituto Religare e a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.
Entre os participantes estiveram educadores e responsáveis de diferentes escolas e instituições educativas do país, investigadores, representantes da Igreja e especialistas de várias áreas. A ESSEd Internacional esteve representada em Portugal pela sua equipa pastoral: Ir. Cleonice Monteiro, responsável pela Pastoral dos Colégios ESSEd em Portugal, Ir. Rosa Carreira, Ir. Edlisa Cardoso e Prof. Alzira Silva, em representação da Pastoral ESSEd Portugal.
Foram dois dias dedicados a olhar para a educação não apenas a partir das suas estruturas ou métodos, mas a partir daquilo que permanece no centro de toda a missão educativa: a pessoa humana.
UM TERRITÓRIO EDUCATIVO QUE MUDOU
A escolha da palavra mapas para o título do Simpósio não foi meramente simbólica.
Como explicou Jorge Novo, coordenador do EDUCRIS, o território educativo mudou e os mapas que serviram para orientar gerações anteriores já não são suficientes para compreender todos os desafios que hoje chegam às escolas. A educação encontra-se perante novas realidades tecnológicas, sociais e culturais e precisa, por isso, de procurar novos caminhos sem perder aquilo que lhe dá sentido.
Foi esta imagem que acompanhou os trabalhos ao longo dos dois dias: quando o território muda, também os mapas precisam de ser revistos. A questão é saber o que deve permanecer como orientação.
UMA ABERTURA CENTRADA NA ESPERANÇA
A sessão de abertura contou com a presença de D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé, que sublinhou a necessidade de uma nova aliança educativa para o futuro, envolvendo famílias, escolas, Igreja, Estado e sociedade civil.
A educação, recordou, não pode ser responsabilidade isolada de uma instituição. Exige uma comunidade inteira disposta a assumir a formação das novas gerações.
E há uma razão para isso: educar é acreditar no futuro.
Esta ideia percorreu muitas das intervenções seguintes. Num tempo marcado por incertezas e transformações rápidas, educar continua a significar apostar numa pessoa cujo futuro ainda não conhecemos.
D. JOSÉ TOLENTINO: A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A PERGUNTA PELO SER HUMANO

Um dos momentos centrais do Simpósio foi a intervenção de D. José Tolentino de Mendonça, através de uma videoconferência gravada.
O cardeal colocou a Inteligência Artificial no centro da reflexão, mas não para discutir apenas as suas possibilidades ou perigos. A questão era mais profunda: Se as máquinas começam a realizar tarefas que durante muito tempo considerámos exclusivamente humanas, o que significa, afinal, ser humano?
A tecnologia obriga, assim, a regressar às perguntas fundamentais da educação: o que é inteligência? O que é liberdade? O que é discernimento? O que significa criar? O que significa relacionar-se? Onde encontramos sentido?
D. José Tolentino afirmou que a Inteligência Artificial coloca a humanidade perante uma nova radicalidade da pergunta sobre o ser humano e deixou uma imagem particularmente significativa para quem educa: também os educadores têm nas mãos um mapa incompleto, um mapa inacabado.
Não é possível conhecer antecipadamente o mundo em que viverão as crianças e os jovens de hoje.
Mas é possível ajudá-los a desenvolver critérios para nele caminhar.
Por isso, o futuro não deve ser entendido como algo que simplesmente chegará até nós. É uma tarefa que se constrói.
QUARENTA ANOS DE EDUCAÇÃO E UM FUTURO QUE NÃO CONSEGUIMOS PREVER
A segunda conferência da manhã trouxe ao Simpósio uma outra perspetiva: a do percurso da educação portuguesa nas últimas quatro décadas e das reformas que marcaram esse caminho. Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação, foi convidado a olhar para os agentes, os alunos, as reformas, os sonhos e também os limites desse percurso.
A sua intervenção trouxe para o centro da reflexão um dos temas que atravessaria todo o encontro: a Inteligência Artificial. Para Marçal Grilo, um dos grandes perigos da IA reside precisamente na sua imprevisibilidade. Há dez anos, lembrou, seria difícil imaginar uma conferência sobre educação em que a inteligência artificial ocupasse um lugar tão central. Hoje, a escola é chamada a preparar crianças e jovens para uma realidade cujos contornos ainda não conseguimos conhecer inteiramente.
A resposta das escolas, defendeu, não passa por tentar antecipar todas as mudanças, mas por garantir uma formação de base sólida, capaz de dar aos jovens conhecimento, capacidade de compreensão e referências para se orientarem num mundo em transformação. «Há vida para além das máquinas», afirmou, sublinhando a importância do respeito pelo outro e da verdade.
Foi também neste contexto que colocou a questão da autonomia das escolas, que considera uma das reformas que Portugal deverá enfrentar, dando às comunidades educativas maior capacidade de decisão e responsabilidade sobre os seus próprios caminhos.
A intervenção de Marçal Grilo acrescentou, assim, uma pergunta essencial ao mapa que o Simpósio procurava traçar: se não sabemos exatamente que mundo vamos entregar às próximas gerações, que educação lhes estamos a dar para que possam habitá-lo sem perder aquilo que as torna humanas?
A reflexão prosseguiu com o Cónego Luís Miguel Figueiredo Rodrigues, diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, que, no diálogo com a intervenção de D. José Tolentino de Mendonça, retomou a metáfora dos mapas para colocar uma questão muito concreta à escola: “Não vamos entregar aos alunos um mapa terminado, mas uma bússola.”
Perante uma realidade em que a Inteligência Artificial pode realizar tarefas que, até há pouco tempo, exigiam necessariamente o trabalho do aluno, o Cónego Luís Miguel defendeu que a questão educativa não pode ficar reduzida a saber se um trabalho foi ou não produzido por uma máquina. Importa perguntar o que aconteceu dentro do aluno nesse processo: se aprendeu, se pensou, se duvidou, se fez escolhas, se descobriu alguma coisa nova.
A tecnologia pode, segundo esta perspetiva, libertar professores de algumas tarefas e devolver-lhes tempo. Mas esse tempo deverá ser colocado ao serviço daquilo que nenhuma máquina consegue substituir: a relação, a escuta, o acompanhamento e o conhecimento pessoal de cada aluno.
Foi também neste contexto que distinguiu conhecer os dados de uma pessoa de conhecer verdadeiramente essa pessoa. Um algoritmo pode identificar alterações no desempenho escolar, mas dificilmente compreenderá, por si só, o que está por detrás delas; uma dificuldade familiar, uma situação de exclusão ou simplesmente um momento de fragilidade. A personalização proporcionada pela tecnologia não substitui, por isso, o acompanhamento humano.
A escola é chamada, assim, a formar utilizadores críticos da tecnologia, capazes de a compreender, questionar e utilizar com liberdade. E, para uma escola de inspiração cristã, essa tarefa inclui também uma dimensão de interioridade: ajudar cada criança e jovem a não viver apenas ligado ao exterior, mas a desenvolver a capacidade de se escutar, discernir e procurar sentido.
No fundo, a imagem da bússola traduz uma das ideias centrais do Simpósio: num futuro que não podemos entregar já desenhado às novas gerações, educar é ajudá-las a adquirir os critérios humanos que lhes permitam escolher o caminho.
A ESCOLA PERANTE UMA GERAÇÃO HIPERCONECTADA
A relação entre educação, tecnologia e vida quotidiana esteve também no centro do painel dedicado a uma realidade cada vez mais presente nas escolas: a hiperconexão.
A discussão trouxe questões relacionadas com a atenção, o uso dos dispositivos digitais, as redes sociais, a saúde emocional e a necessidade de criar uma relação mais consciente com o mundo digital.
Susana Sousa, diretora pedagógica do Colégio do Rosário, utilizou uma imagem particularmente expressiva: a “mochila digital” que os alunos trazem diariamente consigo para a escola.
Não se trata, portanto, de pensar a tecnologia como um inimigo a combater, mas como uma realidade que a educação precisa de ajudar a compreender e a habitar.
A escola tem aqui uma responsabilidade que ultrapassa a literacia digital.
Precisa de ajudar a criança a discernir, a estabelecer limites, a proteger a sua atenção e, sobretudo, a não perder a capacidade de estar verdadeiramente presente.
Como foi sublinhado durante o painel, num mundo hiperconectado torna-se ainda mais importante cultivar a interioridade, a relação e o sentido.
“Aprender é uma forma de nos tornarmos humanos”
A Inteligência Artificial voltou a estar em destaque na intervenção de João Couvaneiro, que abordou os desafios de uma educação humanista na era da tecnologia. A sua reflexão chamou a atenção para uma questão essencial: se as ferramentas tecnológicas podem realizar cada vez mais tarefas associadas à aprendizagem, qual é então o papel da escola?
A resposta passa por reconhecer que aprender não é apenas adquirir informação.
É transformar-se. É desenvolver pensamento crítico, capacidade de discernimento, criatividade, responsabilidade e consciência de si e dos outros.
“Aprender é uma forma de nos tornarmos humanos” foi uma das ideias fortes desta reflexão.
E talvez seja precisamente aqui que a escola encontre uma das suas maiores responsabilidades no presente: não competir com aquilo que as máquinas fazem melhor, mas cuidar daquilo que torna a experiência humana de aprender insubstituível.
UMA ESCOLA QUE SEJA CASA DE HUMANIZAÇÃO
A humanização foi também abordada a partir da inclusão, da participação e da relação com os outros. Um dos laboratórios do Simpósio teve precisamente como tema “A Escola como Casa de Humanização”, colocando no centro quatro dimensões: relação, participação, inclusão e construção da pessoa.
A escola foi apresentada como um espaço onde cada aluno deve poder compreender o mundo e encontrar nele o seu lugar. Esta visão ultrapassa a transmissão de conhecimentos.
Uma escola humanizadora é aquela onde cada criança pode sentir que pertence, onde as diferenças não são motivo de afastamento e onde a educação conduz também ao encontro, ao cuidado e ao serviço.
Neste contexto, foram partilhadas experiências concretas de voluntariado, de encontro entre gerações e de participação social, recordando que há aprendizagens que só acontecem quando uma pessoa sai de si própria para se colocar ao serviço de outra.
A IDENTIDADE DAS ESCOLAS CATÓLICAS: UMA IDENTIDADE DE SERVIÇO
Um dos laboratórios do segundo dia foi dedicado especificamente às “Escolas Católicas: identidade e missão ao serviço de todos”.
A reflexão procurou aprofundar o papel da escola católica na sociedade atual e a forma como a sua identidade pode ser uma fonte de inspiração para o serviço, a inclusão e a formação integral.
Para os Colégios ESSEd, esta questão assume particular importância. A missão educativa da Congregação parte de uma visão cristã da pessoa e procura colocar a formação integral ao serviço do desenvolvimento de cada criança e jovem.
A participação de Diretores, professores e responsáveis pela Pastoral dos Colégios ESSEd em Portugal neste Simpósio permitiu, por isso, não só acompanhar as reflexões de especialistas e de outras instituições educativas, mas também escutar, partilhar experiências e discernir caminhos para a missão pastoral dos Colégios ESSEd Internacional em Portugal.
A SIMBIOSE ENTRE A FRAGILIDADE E A ESPERANÇA
Ao longo do encontro foram ainda abordados desafios como a crise da atenção, a fragilidade emocional, a construção da identidade, o pluralismo social, cultural e religioso e as desigualdades no acesso à tecnologia.
A educação foi sendo olhada como uma realidade que não pode ficar indiferente às transformações da sociedade. Mas também como um lugar onde ainda é possível construir respostas.
Susana Costa Ramalho, professora e investigadora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, apontou a construção da esperança como um dos grandes desafios da educação. Diz-nos que "não se trata de ignorar as dificuldades.
Trata-se de acreditar que a educação pode continuar a abrir possibilidades. Que uma criança não é determinada pelas suas circunstâncias. Que uma dificuldade não precisa de ser o ponto final de uma história. E que a escola pode continuar a ser um lugar onde se aprende a olhar para o futuro com responsabilidade e confiança."
UMA ESCOLA QUE FORMA PARA A VIDA
O Simpósio terminou com uma reflexão sobre a passagem “da reflexão ao compromisso”, deixando aos participantes o desafio de transformar as questões discutidas em opções concretas para a educação.
A arte também teve o seu lugar no encontro. O primeiro dia terminou com a sessão cultural “Magnífica Humanização”, que reuniu música, teatro, poesia, dança e participação de alunos e professores, recordando que a educação integral não se faz apenas através da transmissão de conhecimentos.
Também a beleza educa. Também a arte humaniza. Também o encontro transforma.
Ao longo de dois dias, foram muitas as vozes e muitas as perspetivas. Mas, por baixo de todas elas, pareceu ouvir-se uma pergunta comum: Que pessoa queremos ajudar a nascer através da educação?
A ESSEd INTERNACIONAL EM PORTUGAL REGRESSA COM NOVOS MAPAS, MAS COM A MESMA BÚSSOLA
A participação da Ir. Cleonice Monteiro, Ir. Rosa Carreira, Ir. Edlisa Cardoso e Prof. Alzira Silva neste Simpósio representa, para os Colégios ESSEd Internacional em Portugal, uma oportunidade de continuar a aprofundar uma missão que não se esgota na sala de aula e que está nos alicerces do nosso Projeto Educativo Institucional: uma educação que coloca a pessoa no centro e procura formar integralmente, ajudando cada criança e jovem a crescer em humanidade, a encontrar sentido, a cuidar dos outros e a assumir o seu lugar no mundo. É, afinal, a mesma pergunta que atravessou estes dois dias em Fátima: que pessoa queremos ajudar a formar?
Num tempo em que se fala cada vez mais de Inteligência Artificial, inovação, competências digitais e futuro, o encontro recordou que nenhuma destas questões pode fazer-nos perder de vista aquilo que está antes de todas elas: a pessoa. A criança concreta; com a sua história, as suas perguntas, os seus talentos, as suas fragilidades, os seus sonhos. É por ela que se traçam mapas. É por ela que se procuram novos caminhos. E é por ela que vale a pena continuar a perguntar se os caminhos que estamos a construir conduzem, verdadeiramente, a uma Magnífica Humanização.
No Centro Imaculado Coração de Maria, esta reflexão toca diretamente a nossa missão. Também nós educamos para um futuro que ainda não conhecemos. Também nós sabemos que os nossos alunos irão encontrar desafios que hoje não conseguimos antecipar.
Mas há uma coisa que podemos escolher desde já: que não lhes falte uma bússola.
Uma bússola feita de conhecimento, pensamento crítico, liberdade, responsabilidade, relação, cuidado, fé e esperança.
Porque o mundo pode mudar os seus mapas. Mas a pessoa continuará a ser o centro.
E é essa convicção que continua a orientar a nossa missão:
Mais Humanos, Mais Cristãos, Mais Felizes.
Fotos: @João Cláudio Fernandes/Educris



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