Oito séculos depois, São Francisco continua a reunir a comunidade em Viana do Alentejo

O Centro Imaculado Coração de Maria assinalou os 800 anos do Trânsito de São Francisco de Assis com uma vigília de oração e a celebração da Eucaristia, na qual foi benzida uma imagem do santo, oferecida por uma família amiga. Dois dias de celebração que evocaram a herança franciscana de um lugar historicamente ligado ao acolhimento da infância e à vida da comunidade local.
Há memórias que não pertencem apenas ao passado. Permanecem nos lugares, nos gestos que se repetem e nas pessoas que continuam a dar-lhes vida. Em Viana do Alentejo, a memória de São Francisco de Assis voltou a reunir a comunidade nos dias 5 e 6 de outubro, quando o Centro Imaculado Coração de Maria assinalou os 800 anos do Trânsito do santo, num programa marcado pela oração, pela gratidão e pela fraternidade.
Uma vigília para recordar a vida entregue a Deus
Na noite de 5 de outubro, a Capela de São Francisco acolheu uma vigília de oração que convidou os presentes a acompanhar os últimos momentos da vida do santo de Assis. Através de uma encenação orante, protagonizada por jovens noviças da Congregação das Religiosas Escravas da Santíssima Eucaristia e da Mãe de Deus, em formação para a vida consagrada, a assembleia foi conduzida ao mistério do Trânsito de São Francisco.
O despojamento, a despedida dos seus irmãos, a comunhão espiritual com Santa Clara e a acolhida da morte como passagem para Deus ganharam expressão através dos gestos, das palavras e do silêncio. A oração tornou-se memória viva de um homem que procurou seguir o Evangelho na simplicidade, na pobreza e no amor a todas as criaturas.
A vigília prosseguiu com a partilha da luz do Círio Pascal e do pão da fraternidade. Dois gestos simples, carregados de significado, que recordaram como a herança de São Francisco continua a ser transmitida: uma luz que se entrega, um pão que se reparte, uma fraternidade que se constrói quando cada pessoa encontra lugar junto das outras.
Uma imagem que fica como sinal de devoção e gratidão
Na tarde de 6 de outubro, a comunidade voltou a reunir-se para a celebração da Eucaristia, durante a qual foi benzida uma imagem de São Francisco de Assis, oferecida por uma família amiga e destinada a permanecer na igreja que lhe é dedicada.
A oferta assumiu um significado particular neste ano jubilar. A imagem ficará como sinal duradouro de devoção ao santo e de uma ligação espiritual que atravessa o tempo, permanecendo neste lugar onde a sua memória faz parte da história local.
Para o Centro Imaculado Coração de Maria, este foi um momento de especial significado, vivido com gratidão pela generosidade da família doadora e pela oportunidade de perpetuar a presença de São Francisco naquele espaço. A celebração recordou que a memória de um santo não se guarda apenas nas imagens ou nos relatos históricos: permanece viva quando inspira gestos concretos de fé, generosidade e serviço.
Um lugar onde a memória franciscana se cruza com a história da infância
A importância destas celebrações ultrapassa a comunidade educativa e religiosa do Centro. A Capela de São Francisco integra um espaço cuja história está profundamente ligada à vida de Viana do Alentejo e a uma tradição de acolhimento que remonta a 1859.
Foi nesse ano que o médico António José de Sousa e a sua esposa, Maria José de Sousa, deram início, no antigo Convento de São Francisco, a uma obra pioneira de acolhimento e cuidado da infância. Pensada para apoiar crianças em situação de maior vulnerabilidade e acolhê-las enquanto as famílias trabalhavam, esta iniciativa é reconhecida como uma das primeiras respostas do género em Portugal, tendo sido também identificada com a criação de uma das primeiras creches rurais do país.
Na década de 1940, as Religiosas Escravas da Santíssima Eucaristia e da Mãe de Deus assumiram este legado e fundaram o Centro de Assistência Infantil Imaculado Coração de Maria. A instituição integrou respostas de internato, creche e jardim de infância, evoluindo ao longo das décadas para o atual Centro Imaculado Coração de Maria.
Desde então, a missão educativa foi acompanhando as necessidades das crianças e das famílias, mantendo vivo o compromisso com o cuidado e a dignidade de cada pessoa. É esta história, construída ao longo de gerações, que dá uma ressonância particular à celebração dos 800 anos de São Francisco: num lugar ligado ao acolhimento e ao serviço, a memória do santo voltou a congregar a comunidade em torno de valores que permanecem atuais.
Por isso, o Centro considerou estas celebrações significativas não só para a comunidade cristã e educativa, mas também para o Município e para a identidade histórica e espiritual de Viana do Alentejo. Ficou expresso o desejo de que momentos desta natureza possam ser vividos em espírito de comunhão com as entidades locais, reconhecendo a importância de uma história que faz parte do património coletivo.
A fraternidade prolongou-se nos claustros
No final da Eucaristia, a solenidade deu lugar a um pequeno convívio em honra de São Francisco, padroeiro da capela. O antigo cântico de São Francisco fez-se ouvir nos claustros do Centro, acompanhado pela partilha de um bolo.
Foi um momento de proximidade e alegria, em que a oração encontrou continuidade no encontro entre as pessoas. A voz que entoava o cântico, a mesa partilhada e a presença da comunidade deram corpo à fraternidade evocada durante os dois dias.
Oito séculos depois do seu Trânsito, São Francisco continua a lembrar que a paz começa na forma como olhamos o outro, que a simplicidade pode abrir espaço ao essencial e que a fé ganha rosto quando se transforma em cuidado.
Em Viana do Alentejo, esta celebração deixou também um sinal de continuidade. Na capela, uma nova imagem permanecerá como memória do centenário; nos claustros, o cântico e a partilha prolongaram a alegria do encontro. E, num lugar onde há mais de século e meio se acolhem crianças, permanece viva uma missão que encontra na dignidade humana, na proximidade e no serviço algumas das suas expressões mais profundas.



Comentários